Promotor
ÉGIDE - ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DAS ARTES
Sinopse
Prosseguindo o ciclo dedicado ao Tempo, a Égide propõe um concerto que se centra num dos agrupamentos mais representativos do Classicismo — o quarteto de cordas. Com o declínio do absolutismo e a crescente afirmação da burguesia, os salões privados ganham protagonismo como espaços de fruição artística, proporcionando o florescimento de um vasto repertório para esta formação. Com o Quarteto Tágide, propomos aprofundar o Quarteto de Cordas no Classicismo e a sua importância na primeira escola de Viena, constituída por Haydn, Mozart e Beethoven. Apresentam-se três obras que, apesar da relativa proximidade cronológica, evidenciam a riqueza e evolução do género do Quarteto ao longo destes anos. O Quarteto em Sol maior, Op. 77 n.o 1, de Joseph Haydn, composto em 1799, pertence ao último conjunto de quartetos do compositor e revela plenamente a sua maturidade artística. A obra, caracterizada por clareza formal, fluidez temática e ambiente elegante e transparente, evidencia o equilíbrio e diálogo entre as linhas. O primeiro andamento afirma um carácter luminoso e enérgico; o Adagio oferece um espaço mais contido e cantabile; o Menuetto retoma um espírito dançante, elegante e subtil; e o Finale encerra a obra com leveza e vivacidade. Ao longo de todo o quarteto reconhece-se o lado mais jocoso e luminoso da linguagem de Haydn, sempre sustentado por uma construção formal muito sólida.
Já o Quarteto de Cordas n.º 19 em Dó maior, conhecido como “Dissonâncias”, integra o conjunto de seis quartetos que Wolfgang Amadeus Mozart dedicou a Joseph Haydn. A obra distingue-se desde o início pela introdução lenta do primeiro andamento (Adagio), marcada por uma escrita harmonicamente ousada, com dissonâncias sucessivas e ambiguidade tonal pouco habitual no contexto do classicismo vienense, que dá nome ao quarteto. Este ambiente contrasta com o Allegro que se segue, mais luminoso e estruturado, revelando o permanente equilíbrio entre tensão e clareza formal que caracteriza a primeira escola de Viena. O segundo andamento (Andante cantabile), por sua vez, apresenta um carácter mais íntimo e lírico, construído sobre uma melodia expressiva e cantabile. “Dissonâncias” é um quarteto de contrastes entre os dois andamentos que apresentaremos, na vivacidade inicial do Allegro e serenidade do Andante, evidenciando a profundidade estilística da obra, reflexo das obras tardias de Mozart.
Em contraste, o Quarteto em Fá menor, Op. 95, de Ludwig van Beethoven, composto em 1810 e intitulado pelo próprio “Serioso”, apresenta uma escrita mais concentrada, tensa e contrastante. Situada no final do segundo período criativo do compositor, esta obra antecipa já uma mudança de linguagem, apontando para uma maior fragmentação formal e para uma intensidade expressiva mais marcada. O primeiro andamento é denso e dramático; o segundo, mais contido, mantém uma atmosfera de inquietação; o Scherzo é incisivo e abrupto; e o Finale, apesar do percurso marcado por tensão e conflito, culmina numa coda surpreendentemente luminosa, em modo maior, frequentemente associada à ideia de superação.
Com este programa, procuramos assim colocar em diálogo duas obras, unidas pela continuidade estilística do (ainda) Classicismo: por um lado, o ideal de equilíbrio formal, transparência e elegância textural que encontramos em Haydn; por outro, uma linguagem mais expressiva, contrastante e intensa, onde Beethoven antecipa o Romantismo. O quarteto surge, deste modo, não apenas como uma formação central do Classicismo, mas como um espaço privilegiado de transformação estética, onde se tornam visíveis as mudanças de sensibilidade musical no início do século XIX.
Preços